EP Emotion: Side B – Carly Rae Jepsen

31/08/2016
  • Autor: Interscope Records
  • Ano: 2016

Lançado em 2015, Emotion, terceiro álbum de estúdio da canadense Carly Era Jepsen, é um sopro de leveza no meio R&B que se encontra a música pop. Sem medo de soar infantil ou inocente, Carly nos conquista exatamente por essas qualidades. Emotion Side B, como o próprio nome diz, é um outro lado do disco lançado anteriormente, porém com muita personalidade. Side B é coerente e fiel ao tema anos 80, o que nos mostra a versatilidade da artista.

Nele, Jepsen discorre sobre as mazelas de se apaixonar por um amigo e ficar na friendzone. Ora na pele da rejeitada, ora na pele de algoz, Carly consegue imprimir em oito faixas os altos e baixos de uma paixão não correspondida. Vamos analisar faixa a faixa do álbum para explicarmos melhor seu conceito.

1. First Time – A música começa como em uma estação de rádio com sinal baixo, para depois ouvirmos o barulho de fita cassete entrando no aparelho e, assim, começa a canção de verdade. Um ótimo jeito de introduzir o clima que virá a seguir por todo o álbum, de que são baladas oitentistas, bem nostálgicas e gostosas. Com sintetizadores agitados e teclado bem marcado, a música soa como um clássico antigo. Carly canta sobre como é ficar com alguém que você sabe que vai quebrar seu coração, mas que você não se importa porque estar com a pessoa é como se sentir apaixonado pela primeira vez. Inconsequente, a cantora ainda nos faz sentir uma garota adolescente enfrentando sua primeira paixão. Obrigado Carly.

2. Higher – Continuando com a boa marcação dos teclados e agora bateria, Higher vai crescendo ao longo da canção, com estrofes marcantes e um refrão delicioso, com direito a coral de backing vocal e tudo. Na música, Carly canta sobre como conheceu outro cara que a colocou lá em cima e de como é o melhor de todos com quem ela já se relacionou. A faixa está deslocada na segunda posição do EP, pois aqui Jepsen já encontrou outro alguém com quem está feliz. Porém, a seguir, descobriremos que não é bem assim.

3. The One – Ainda no clima oitentista, com teclado bem acentuado e um refrão bastante pop, Carly canta sobre viver um romance com um amigo, mas ela teme a pressão de um relacionamento e diz que preferia não ser a certa para ele. É um jeito divertido de cantar se declarando para alguém, ao mesmo tempo que revela sua fragilidade com o medo de sofrer no relacionamento.

4. Fever – A quarta faixa do álbum mantém o clima divertido e nostálgico das anteriores. A linearidade ajuda a dar identidade ao trabalho da cantora. Ela canta sobre essa “febre” que pegou do seu amigo, por quem ela se apaixonou. Um trocadilho óbvio para paixão, Carly diz que está ciente de que ele partirá seu coração, mas que ela nada pode fazer pois essa febre durará para sempre. “And my lights stay up, but your city sleeps”, declara nossa poeta que embarca em uma relação de mão única.

5. Body Language – Por mais animado que o álbum estivesse até agora, essa faixa consegue dar um passo acima das demais. Contagiante, com o uso do coral como backing vocals, Carly dá vida a uma das bridges mais interessantes, cheia de “ohh” que ficam na sua cabeça, de uma maneira positiva. A canção fala sobre esse amigo por quem ela está apaixonada, mas que não tem coragem de contar. A sua linguagem corporal faz o “truque” de revelar seus sentimentos, revela ela no refrão. Ela pede para que eles passem a noite juntos e não fiquem pensando demais sobre isso, para que deixe os corpos falarem. Safadinha nossa garota.

6. Cry – Com certeza o destaque do EP, Cry tem uma introdução épica no teclado, mostrando uma clara mudança de tonalidade para a faixa. Chegamos à primeira downtempo e o choque da mudança de sonoridade agrada aos ouvidos. Delicioso ouvir a dor na voz da cantora, que parece cantar todas suas músicas com uma verdade e emoção ímpar. O refrão ainda nos presenteia com um agudo delicioso de reproduzir. A música fala da relação dela com seu amigo por quem está apaixonada, dizendo no começo da canção que ele é o rei do castelo, isto é, que as coisas giram ao redor dela. E ela ainda diz “não se preocupe, eu tenho os holofotes (para você)”, enaltecendo a ideia de que ela faz tudo por ele. Porém, ela reclama que ele nunca se entrega aos seus próprios sentimentos, que não tem coragem de chorar. Ela sofre por essa frieza e insegurança do outro, e diz que ao acordar sem ele, só sabe chorar.

7. Store – Essa é uma faixa bastante dúbia, ela é tão boba que chega a ser legal. Os instrumentos ajudam a passar uma impressão de infantilidade, enquanto Carly canta alegremente em seu refrão grudento que irá para a loja (isso mesmo, loja) e que assim a pessoa nunca mais irá vê-la. Ela explica na música que não é boa de despedidas, então parece que inventa uma mentira qualquer para fugir do relacionamento. E ir à loja ficou sensacionalmente bobo.

8. Roses – Fechando com uma deliciosa downtempo, que foge da sonoridade antiga para soar contemporânea, provavelmente uma faixa descartada do álbum original. A letra da música é um poema cheio de duplos sentidos, muito mais inteligente do que a faixa anterior e, assim, conseguimos desculpar sua ida à loja. Ela canta como se estivesse no lugar desse amigo por quem estava apaixonada, pois veja que ela começa dizendo que quando atende a porta, sempre tem a esperança de ser ele, e mesmo que nunca seja, ela afirma que está disposta a viver uma amizade se ele assim quiser. Depois, ela canta que na hora em que ele a deixou foi quando ela percebeu o quanto o amava: “I sat with you on my bedroom floor and I couldn't move, all that we were losing. I saw you like I never did before”. Depois ela canta sobre à simples mudança de estação ele volta e as flores de seu jardim ficam pretas. Interpretamos como que ela se referisse à saudade, que ela retorna por entre as rachaduras e tornam seu jardim negro. Mas ela conclui dizendo que não vai retirar as rosas negras, na vã esperança de que um dia não seja a saudade que irá retornar, e sim ele, tornando seu jardim colorido novamente.

Emotion Side B faz de limões, limonada: transforma a dor de não viver um amor em sua completude em músicas animadas. Carly Rae Jepsen entrega mais um álbum assertivo em sua estrutura, linear, sem surpresas, fácil de digerir e delicioso de ouvir mais de uma vez. De seus últimos três trabalhos para cá, podemos afirmar tranquilamente que ela continua acertando. E claro, sempre nos fazendo sentir mais apaixonados do que podemos ser.

Andy Rocka

Jornalista, estudou Psicologia,
foi social media do Pontofrio,
trabalhou em revistas de ciência,
como a Superinteressante e
Psique, mas sua paixão mesmo
é música e cultura pop.