Álbum Glory – Britney Spears

01/09/2016
  • Autor: RCA Records
  • Ano: 2016

Glory, o nono disco de estúdio de Britney Spears, chega em um momento muito interessante da vida da cantora. Dona de uma residência de shows de sucesso em Las Vegas, assumidamente mãe coruja e esbanjando vitalidade e um corpo escultural, Spears completa sua leva de bons momentos ao entregar um álbum coeso, bem estruturado e cheio de identidade.

A seguir vamos analisar faixa a faixa do disco e discutir sobre suas inspirações e ideias.

1. Invitation – A faixa de abertura tem nome de música introdutória, mas é mais do que uma “intro” ou interlude, trata-se de uma música completa. Com arranjos simples e leves que lembra new age misturado com pop. Deliciosa do começo ao fim, a sonoridade leve enaltece o vocal de Spears, que fica mais robótico do que gostaríamos quando alcança o refrão.

2. Make Me... (feat G-Eazy) – Escrevemos sobre a faixa aqui, explicando o impacto dela na carreira da cantora. Também discutimos sobre o clipe em nossa coluna Superótica (leia aqui).

3. Private Show – Com uma pegada cabaré, a música começa sexy, com os vocais da Britney mais limpos e uma batida viciante. Até que o refrão se mostra chato, previsível e repetitivo. Ou seja, os ingredientes perfeitos para a canção não sair mais da sua cabeça. Cheia de personalidade, a faixa é bastante ousada para a cantora, pois o maior instrumento dela é a voz. Se você chegar até a bridge, descobrirá uma faceta bem black music de Britney, com falas cantadas bem tônicas, em que podemos ouvir o sentimento de raiva da cantora. Um deleite para os fãs. E foi essa canção que estrelou o comercial do seu novo perfume, que você confere abaixo.

4. Man on the Moon – Um dos highlights do álbum, Man on the Moon é uma balada animada, bastante pop, que também explora os vocais da cantora e explora o lado fofo da Britney que não vemos desde Lucky talvez. Sonhadora, na música Spears canta para as estrelas sobre como ela aguarda seu amado, que costuma só aparecer a noite para ela. A canção é bastante linear, o que ajuda a manter o estilo delicado que a artista imprimiu na letra.

5. Just Luv Me – A quinta faixa é o suprassumo do disco. A canção foi produzida pelo talentoso Robopop, que produziu as faixas Thinking of You e Last Goodbye da Kesha (destaques do álbum) e até Video Games da Lana Del Rey. Sua marca registrada são as músicas mais downtempo, porém com batidas pegajosas e de fácil assimilação. Just Luv Me já começa com os dois pés na porta, com elementos da música trance – popularizada pelo Major Lazer – em uma vibe PR&B, ao estilo The Weeknd. Mas quando os vocais entram em cena, tudo que temos é uma faixa que respira e transpira Britney Spears: sensual, misteriosa e envolvente. A voz de Spears está mais próximo daquilo que conhecíamos dos trabalhos anteriores, mais sussurrada e contraída, exalando sexualidade (do jeito que a gente gosta). O refrão pede para que o cara apenas a ame, que promete não pedir mais nada. Um smash hit que poderia brilhar como primeiro single, embora amamos Make Me...

6. Clumsy – A primeira EDM do disco faz bonito em sua estreia. Clumsy é uma animada canção que fala sobre um cara desajeitado por quem Britney tem uma enorme queda. E quem não tem? O “Ops” cantado por Britney é um alívio cômico muito bem-vindo para o álbum até então recheado de sensualidade. As batidas eletrônicas dubstep tem bastante tempo em cena, o que mostra a preocupação da cantora em entregar uma música pronta para ser tocada na balada. Esperta.

7. Do You Wanna Come Over? – Impossível ouvir a batida da música e não lembrar de Blackout, um dos melhores álbuns da cantora. Mais dark que as demais, Do You traz um banjo em seus arranjos para não ficar gótica demais. E funciona brilhantemente, ponto para os produtores Mattman & Robin, que já trabalharam com Carly Rae, Selena Gomez e no último ótimo disco da Gwen Stefani. A faixa cresce a cada nova estrofe, que parece se desconstruir a cada batida, finalizando em uma bridge deliciosa e animada. Safadinha como ela é, Britney canta um verdadeiro dirty talk, convidando o cara para ir até o local dela, sugerindo uma massagem, beijos e toques. Quem recusaria?

8 – Slumber Party – A oitava faixa mantém o bom ritmo do álbum, agora trazendo novas percussões, que dão um toque de reggae à canção. Aliás, uma das nossas favoritas, pois Britney parece bem à vontade para cantá-la, com seu ótimo tom safado e ingênuo ao mesmo tempo, nos fazendo lembrar da boa época de Oops I Did. A construção da música é simples, gostosa de acompanhar, com batidas leves e fáceis de ouvir de novo e de novo. Na música, ela fala sobre essa tal festa do pijama que os vizinhos andam reclamando. A gente sabe muito bem dona Britney que não tem ninguém vestido nessa festa.

9 – Just Like Me – Mais um highlight do disco, que conta com um violão no meio de sua construção eletrônica. A loira canta sobre como não pode acreditar que seu amado a trocou por outra mulher que se parece muito com ela. Porém a faixa não cai no melodrama, pelo contrário, consegue soar sensual enquanto discorre sobre sua indignação. Coisas que só a Britney pode nos proporcionar.

10 – Love me Down – Um novo tom surge no álbum: nostálgico. A faixa nos remete aos hits dos anos 90, graças à sua construção mais falada do que cantada. Até aí tudo ótimo com a música, até o refrão repetitivo e cansativo carregar a música para baixo. A letra também não acrescenta nem ajuda, falando sobre eles se amarem no escuro até o final. A faixa não chega a estragar a experiência do álbum, embora não sentiríamos falta dela aqui.

11 – Hard to Forget Ya – Engraçada a posição desta faixa, logo depois de Love Me Down. Isso porque Hard to Forget Ya também possui um refrão repetitivo, porém sua construção é muito mais assertiva, pois não repete sílabas, mas frases, e cada repetição ganha uma nova cor, graças à produção afiada de Oscar Görres. Nela ouvimos uma percussão agitada e consistente, que contrasta deliciosamente com a voz adocicada da cantora, que fala sobre como é difícil esquecer o cara, que há algo nele especial que a faz ficar desejosa.

12 – What You Need – Guitarra, bateria e uma Britney cheia de atitude, ao estilo I Love Rock’n’Roll. A faixa que encerra o álbum mostra Spears dominando seus vocais com uma maestria duvidosa. Ela canta assim mesmo? Faz tanto tempo que a cantora não nos dá um vislumbre de suas técnicas, que desconfiamos se ela é realmente capaz de cantar essa canção ao vivo. Mas se chegamos a desconfiar, é porque a faixa realmente entrega uma faceta maravilhosa da cantora, que brilha sozinha apesar da ótima produção.  

13 – Better – Britney foi muito sacana em deixar músicas tão boas para a versão deluxe. Deste modo, você só terá a experiência completa de Glory se adquirir esta versão. Estratégias de marketing à parte, Better é uma das melhores faixas do disco. Produzida por Bloodpop, o mesmo produtor por trás da faixa de retorno de Lady Gaga (Perfect Illusion), mostra que está afiado com o que há de mais atual na cena pop. Better fala como o amor fica mais gostoso quando você conhece melhor a pessoa e seu corpo.

14 – Change Your Mind (No seas cortes) – Sério Brit que essa faixa ficou de fora da versão standard? Maravilhosa do começo ao fim, a faixa começa como um clássico pop dos anos 2000, para se transformar no refrão em uma pegajosa música eletrônica atual. Mas aqui quem brilha mesmo é a letra, cheia de trocadilhos, más intenções e um toque espanhol. Spears pede para que o cara não seja tão cortês e passe um pouco dos limites. “You don't wanna cross the line, but I'ma make you change your mind”. Safadinha.

15 – Liar – A canção traz uma gaita para se diferenciar das demais do álbum, embora esse seja o único ponto a ser destacado. A faixa é bastante linear, montada como um pop/R&B dos anos 90, sem se preocupar em ser hit. A letra também é simples, em que Britney canta que sabe que o cara está mentindo para ela. Essa sim, uma faixa que deveria ficar na versão opcional Deluxe.

16 – If I’m Dancing – Contemporânea, alternativa, subversiva e inteligente, If I’m Dancing é uma Britney fora da sua zona de conforto. Segurando notas grandes ao mesmo tempo cantando sussurrado, Spears se mostra protagonista em uma faixa em que os sintetizadores tentam competir o tempo todo com ela. A faixa se destaca por soar como um hino underground, como se Britney tentasse atingir um novo público. E com sucesso.

17 - Coupure Électrique – Ainda apostando em sons mais alternativos e urbanos, Britney nos surpreende ao cantar uma música inteira em francês, em que a produção toda é pensada para dar visibilidade à sua voz. As batidas são como um R&B alternativo, leve e agradável, deixando com que Spears, em seus sussurros, nos lembre porque chegou ao reinado da música pop. Uma estrela avant-guard que se arrisca sem medo e acaba acertando em cheio.

Glory é um álbum excelente, que se fosse lançado alguns anos atrás seria incompreendido ou visionário, dependendo da recepção e do seu impacto na sociedade. Isso porque ele explora o R&B alternativo, que cai como uma luva para a voz sensual e sussurrada de Spears. Falando em voz, o vocal de Britney é o grande destaque do álbum, todas as faixas foram pensadas para que eles brilhassem.

Como musicista, apenas nos resta aplaudir a cantora. Como fã, fica a dúvida se é mesmo Britney quem canta ou se a voz foi preparada eletronicamente. Isso porque, como disse anteriormente, há muito não vemos Britney nos mostrar sua evolução e suas técnicas vocais ao vivo, em um momento que fosse só ela em cena e o microfone.

Outra coisa que não podemos deixar de notar é que, embora ela tenha co-escrito seis faixas do disco em sua versão Deluxe, as músicas não dialogam com sua vida. Ela nos trouxe a estética musical de In The Zone (como previmos aqui) e a força contemporânea de Blackout, porém, o que falta em Glory – e que sobra nos álbuns supracitados – é a relação entre música e artista. Quem não gostaria de ouvir Britney cantando sobre sua experiência de ser uma mãe famosa, em evidência em todas as mídias do mundo? Ou sobre sua luta constante contra a depressão e o transtorno bipolar?

Enfim, são apontamentos de um fã e que não interfere na maestria com que o álbum foi pensado. Glory tem o selo Britney de identidade, cheio de faixas sensuais, dançantes e marcantes, feito para agradar os admiradores e os críticos. Que este seja apenas o início de uma era cheia de glórias, em que Britney acerta o tom de sua carreira e nos faz aguardar seus próximos passos ansiosamente. Ou, gloriosamente.

Andy Rocka

Jornalista, estudou Psicologia,
foi social media do Pontofrio,
trabalhou em revistas de ciência,
como a Superinteressante e
Psique, mas sua paixão mesmo
é música e cultura pop.