Álbum Honeymoon – Lana Del Rey

11/10/2016
  • Autor: Interscope Records
  • Ano: 2015

Honeymoon é o quarto álbum da cantora Lana Del Rey, que retorna às suas origens pop-soul cheia de jazz que a tornou famosa. Com interpretações cheias de sentimento, Lana brinca com seus agudos e nos coloca em uma espécie de transe durante sua lua-de-mel. Vamos conhecer o trabalho dessa artista, que compôs todas as canções do álbum e que nos convida a conhecer sua intimidade.

1. Honeymoon

Com uma introdução melódica, em que ouvimos um violino choroso, somos introduzidos à lua-de-mel da cantora. “Nós dois sabemos que não é fashion me amar, mas você não parte porque sabe que não há ninguém tão perfeito para ti como eu”, sussurra Lana nos primeiros versos. Há uma declamação cantada na canção que abre o álbum, com um tom bucólico em suas falas, que cantam com pesar a alegria de manter um homem perigoso em sua vida.

2. Music to Watch Boys To

A canção começa com Lana em plenos pulmões dizendo que gosta muito de observar os rapazes enquanto se prepara para destruí-los. A música é sobre esse jogo de Lana, de viver romances intensos e assistir seus amores partindo enquanto produz canções. “And I live to love you, boy. Nothing gold can stay, like love or lemonade or sun or summer days. It's all a game to me anyway” canta uma desiludida cantora. A melodia transparece esse sentimento de vazio, com vozes em eco no refrão, transmitindo essa sensação de vazio e solidão. Tocante.

3. Terrence Loves You

A suave canção blues encontra seu espaço para fazer uma bela homenagem a David Bowie. A faixa fala sobre não esquecer aqueles que são eternos, como amores, música e artistas. Terrence da faixa não é citado na música, porém Major Tom sim, que é o astronauta ficcional criado por Bowie na faixa Space Oddity. “But I know the light's on in the television trying to transmit, can you hear me? Ground control to Major Tom”, pergunta uma descrente Lana, que pergunta em vão se há alguém ouvindo seu martírio. Terrence era Terry Burns, irmão de Bowie, que vivia sob a condição da doença da esquizofrenia e acreditava que seu irmão David iria salvá-lo.

4. God Knows I Tried

Em outra brisa refrescante de blues, Lana encontra-se feliz em achar beleza em pequenos detalhes, como acordar e ver o céu em tons de vermelho, azul e amarelo. Ela dança displicentemente ao som de sua música favorita, enquanto se delicia com sua liberdade. Assim, chegamos ao refrão em que Lana confessa que sofreu, chorou, implorou, morreu, e que Deus é testemunha de tudo isso. Porém, ela canta que Deus lhe deu vida, e finaliza com “então que haja luz, ilumine minha vida”. A canção parece um choro engasgado, em que a cantora vive uma felicidade que desacredita, mas tenta encontrar forças na justificativa de Deus saber o quanto ela sofreu anteriormente.

5. High By The Beach

Saindo do conforto do blues para cair em uma canção mais pop, com mais sintetizadores e uma letra mais radiofônica. A faixa serviu como o primeiro single do álbum, e fala sobre Lana desistir de um amor que não vale a pena, e assumir que prefere ficar chapada na praia sozinha ao invés de ter de lidar com uma pessoa tão imatura. “The truth is I never bought into your bullshit. When you would pay tribute to me, cause I know that, all I wanted to do was get high by the beach”, diz a exasperada cantora.

6. Freak

Autobiográfica, a música soa bastante sincera com Lana cantando para seu amado que, se ele deseja mudar, que venha ao seu encontro na California, para que ambos possam ser loucos juntos. A cantora confessa na canção que seu amado é frio como o gelo, mas que quando ele quer ser gentil, ele é incrível. Ela quer dançar com ele em câmera lenta, fazer o tempo desacelerar, pq sabe que sua vida é agitada, mas pede para que eles sejam loucos suficientes para dançarem um rock lento enquanto se amam. A música é mais linear do que o título pode nos fazer pensar, o que faz com que ela perca um pouco do seu charme.

7. Art Deco

Lana del Rey mostra toda sua genialidade ao escrever sobre ela mesma na faixa Art Deco. Ela canta sobre essa garota underground que passei pelas festas mainstream, que parece uma Art Deco na pista de dança. Referindo-se a ela mesma, Lana se comparada a esse movimento artístico simplista, minimalista e cheio de formas geométricas bem alinhadas. Na canção Lana ainda se pergunta por que dessa garota sempre querer mais. “When they all say hello, you try to ignore them, cause you want more (why?), You want more (why?)”, questiona a inteligente compositora.

8. Burnt Norton (interlude)

Burnt Norton é um poema de T. S. Eliot, escritor e poeta inglês, que fala sobre a natureza do tempo e a salvação. O poeta enfatizava a necessidade do indivíduo de focar no presente e saber que tudo está dentro de uma ordem universal. Compreendendo a natureza do tempo e a ordem do universo, a humanidade estaria apta para reconhecer Deus e procurar redenção.

9. Religion

Brincando com seus agudos, Lana entrega uma faixa cheia de personalidade. Religion procede a interlude que fala sobre encontrar Deus no presente. A faixa diz que o homem que ela ama é sua religião, que ele é sua maneira de viver, e que seu mantra é um (delicioso) “aleluia, eu preciso do seu amor”. Lana até canta que seus amigos dizem que isso é perigoso e que ela precisa de mais espaço, mas ela confessa que não consegue imaginar isso e que tudo que ela sabe fazer é estar perto do seu amado. A entrega pode ser sentida em sua voz, que canta como se fosse um coral de igreja sobre seu amor.

10. Salvatore

Um dos melhores momentos do álbum, Salvatore volta com seu violino em clima folclórico, para falar sobre Salvatore, que em italiano significa Salvador, também usado para se referir a Jesus em algumas partes da Itália. Lana, que na canção passada afirma que sua religião é o seu amado, aqui ela continua com sua adoração descontrolada. Com uma melodia sutil, que lembra grandes clássicos de Tchaikowski, a música entrega até um bridge no piano, dando ênfase na voz apaixonada da cantora. “Dying by the hand of a foreign man, happily” canta a intensa Lana.

11. The Blackest Day

Toda a tristeza de Lana é impressa nessa canção, que tem uma batida lenta e insistente que nos coloca em modo reflexivo por toda a música. A cantora dá vida a uma interpretação digna de Billie Holiday, a quem ela cita em determinado momento. Del Rey canta sobre perder seu amado e viver neste luto em que todos os dias são os mais escuros de sua vida. Ela repete que está sozinha novamente e se afundando cada vez mais na escuridão. Mas ao contrário do que possa parecer, a música tem um certo ritmo envolvente, que não se deixa levar pela depressão da cantora.

12. 24

Doce e afiada, Lana dá um show com a interpretação desta canção, que fala sobre como ela foi enganada de diversas vezes por quem ela ama. “There's only 24 hours in a day, and half as many ways for you to lie to me”, canta a desenganada Lana. O refrão ainda encontra forças em um delicioso canto gutural, enquanto maracas e saxofones brincam de forma sutil em torno da voz da artista. Intensa e forte, a canção é uma das mais marcantes do disco.

13. Swan Song

A última canção (de inéditas) do disco chega cheia de depressão pós lua-de-mel. Ela sugere que ela e seu amado abandonem tudo e deixem para que outros continuem seus trabalhos. Ela promete que não irá cantar nunca mais, e que ele não precisará trabalhar, e que esta é sua canção do cisne. Aqui, o cisne é uma óbvia alusão ao Lago do Cisne Negro, em que o animal morre ao alcançar seu objetivo. “Say good night to the life and the world you knew, I'm going to follow you”, diz Lana que, aparentemente, não teria medo de morrer ao lado do seu amado. Desta vez, ao contrário de The Blackest Day, os violinos tornam a canção mais melancólica do que todas as anteriores.

14. Don’t Let Me Be Misundertood

Um cover da música originalmente criada para a lendária cantora de jazz Nina Simone. A interpretação de Lana, cheia de dor, combina perfeitamente com a canção, que tenta explicar ao seu amado que às vezes ela pode ser dura e parecer sempre preocupada, e que as vezes ele pode pensar que ela desconta nele as mazelas da vida. Mas a verdade é que seu coração está cheio de boas intenções e suplica para que não seja mal interpretada. Lana, isso não aconteceria, porque você manda muito bem na interpretação.

Honeymoon é um disco conciso, que segue fiel em sua sonoridade do começo ao fim. Lana Del Rey acertou no tom do álbum, fazendo sua delicada voz soar mais forte do que nunca, com instrumentos de sopro e de corda bem leves, que não brigam pelo holofote. Intensa, apaixonada e às vezes insana, Lana é uma mulher de atitude que não tem medo de expor seus sentimentos mais íntimos em músicas que são verdadeiras declamações de amor.

A lua-de-mel de Lana Del Rey é um prato cheio de paixão, na saúde ou na doença, que você não deve deixar de fora da sua playlist romântica.

Andy Rocka

Jornalista, estudou Psicologia,
foi social media do Pontofrio,
trabalhou em revistas de ciência,
como a Superinteressante e
Psique, mas sua paixão mesmo
é música e cultura pop.