Álbum Joanne – Lady Gaga

21/10/2016
  • Autor: Interscope Records
  • Ano: 2016

Lady Gaga lançou seu quinto álbum de estúdio, o despido Joanne. Nele, a cantora mostra um lado seu pouco conhecido: suas fragilidades. Por anos mostrando-se como uma garota forte, vestindo peças haute couture que ninguém mais se atreveria e expressando sua arte das formas mais extravagantes, Gaga agora se despe das firulas para tocar feridas dolorosamente humanas, como abuso sexual, câncer e guerra. Mas será que há espaço para diversão nesse momento de vulnerabilidade? É o que vamos descobrir com essa review faixa a faixa:

1. Diamond Heart

A primeira canção de Gaga tem suas tradicionais introduções triunfais, como já comentamos aqui. A música começa tímida no violão, dando espaço ao vozeirão grave de Gaga, para depois estourar em um delicioso rock/pop estilo Bon Jovi com Debbie Harry. A música fala sobre como ela sobreviveu a um trauma no passado: “some asshole broke me in, wrecked all my innocence”, e foi lutar pelo que sonhava: “a cruel king made me tough, daddy's girl is never good enough”. A música é forte e faz jus ao título de faixa um de um álbum da Gaga. Ela apresenta o que virá à seguir, com violão, arranjos sintetizados, bateria, guitarra e garganta, muita garganta.

2. A-YO

Here we go! O que ouviremos aqui é uma das músicas mais divertidas da Gaga, que traz as palmas clichês de hit country, Josh Homme na guitarra acompanhado de Mark Ronson em uma canção que começa sexy e chega ao refrão explodindo em energia. Atrevida, ela diz “despeje em mim, meu corpo te faz pedir mais, me acenda e me inspire, e agora olhe para o espelho no teto e aprecie a visão”, explica a cantora. A música te faz ter vontade de dançar, e só tem a voz da Gaga e uma banda. O acompanhamento eletrônico é discreto e aqueles gritinhos funk music ao estilo James Brown são o toque especial em um prato que já estava delicioso.

3. Joanne

A canção título do álbum é uma suave lullaby, com o poderoso vocal de Gaga acompanhado de um violão e uma orquestra. A canção é a primeira que traz a cantora despida de toda sua teatralidade, para cantar com dor e genuinidade sobre a partida de alguém amado. A faixa reflete o momento na carreira da artista, que resolveu fazer o som que sempre quis fazer, e se deu a chance de mostrar ao mundo como ela pode soar vulnerável e humana. Não por menos, pois a canção fala sobre sua falecida tia, a quem seus pais prestaram uma homenagem batizando Gaga de Stefani Joanne. Um delicioso frescor de sonoridade na carreira da cantora.

4. John Wayne

Antes que você possa se acostumar com os novos caminhos explorados pela cantora, ela volta com um marcado synthpop que a consagrou famosa nas eras passadas. A música começa com um diálogo em que Gaga diz que gosta de cowboys e pergunta se ele pode acelerar enquanto ela senta na cela dele. A faixa faz referência ao ator John Wayne, conhecido pelos carrancudos personagens que deu vida em filmes de faroeste. Com uma pincelada de rock alternativo, a guitarra eletrônica de Marc Ronson faz as vezes na última parte da canção, que fala como ela se sente viciada em homens maus como o John Wayne.   

5. Dancin’ In Circles

Elevando o nível da faixa anterior, Dancin’ In Circles se agarra ao passado da cantora, com uma montagem bem Bad Romance, mas se aventura em caminhos inexplorados, como o ska e o reggaeton. Uma canção tropical que é mais sensual que Sexxx Dreams e mais escrachada que Love Game. Nela Gaga canta sobre como ela se toca e gosta de brincar de dançar em círculos, em uma clara alusão à masturbação. Divertida de cantar, mais ainda de dançar. A produção de Beck não tem medo de misturar trance music com violão, dando vida a essa delícia de música, que caberia bem tanto em uma balada quanto em uma praia de Ibiza. E vamos combinar, é sempre bom ouvir a faceta sensual de Gaga.

6. Perfect Illusion

Já discorremos sobre Perfect Illusion ser uma canção corajosa na carreira da destemida cantora. Também analisamos o vídeo clipe da canção, mas ainda há o que ser dito da música. Ela é a faixa perfeita para seguir com o álbum, pois se a anterior nos deixa bastante animados, esse arrasa quarteirão chega para te elevar ao extremo da anfetamina.

7. Million Reasons

Contamos todas nossas impressões sobre a canção e o impacto que ela traz à camaleônica carreira de Lady Gaga. Million Reasons é uma canção crua no violão, um hit pop com alma country, que te coloca em uma declaração de amor típica de Gaga, com drama e dor em sua voz. A canção acalma os nervos da sequência de três uptempos e prepara o ouvinte para uma total virada no álbum.

8. Sinner’s Prayer

Em parceria com um dos grandes nomes da cena alternativa americana, Father John Misty, Gaga traz à vida Sinner’s Prayer, que é um indie folk revestido de música pop, com toda a personalidade de Misty. É possível ouvir com muita clareza os instrumentos comandados pelo músico americano, um violão, gaita, um banjo talvez até que, na segunda metade da canção, Gaga entra com seu piano, transformando tudo em um grande dueto de instrumentistas. Fabuloso, ao mesmo tempo em que a cantora entrega uma interpretação digna de Bruce Springsteen, com uma voz gutural arranhada e pesada. A canção fala em como a cantora falha em ser boazinha em seus relacionamentos e diz que essa é sua oração de pecadora, pois o que ela deseja é destruir o coração do seu amado.

9. Come to Mama

Como um clássico soul dos anos 70, a música começa com Gaga proferindo versos sobre amarmos uns aos outros, enquanto um piano vem de leve acompanhando a cantora. Até a canção se transformar em um Rhythm & Blues delicioso, com direito a saxofone, backing vocal e banda. Mostrando toda sua versatilidade como diva pop, a cantora evoca divas do passado para dar forma a uma canção sobre amor, compaixão e reflexão sobre o futuro. A música anseia por dialogar com os jovens e isso é importante para uma cantora com o alcance que Gaga tem, entregar uma faixa tão cheia de personalidade, com uma mensagem especial em formato de clássico da música soul. Um dos pontos mais altos do disco.

10. Hey Girl

Que tipo de som fazer quando você tem ninguém menos que Florence Welch no seu estúdio? Gaga optou pelo clássico dueto “eu canto, você canta” dos anos 80, em uma canção que facilmente nos remete aos bons momentos da música disco, quando Cher e Donna Summer comandavam o cenário. A faixa também remete a Prince e Elton John, praticamente impossível não pensar em Bennie And The Jets. A escolha é muito corajosa e mostra que Gaga tem garras suficientes para fugir completamente da música contemporânea, mesmo com um nome de peso como participação especial. As duas cantam com a voz cheia de amor sobre se apoiarem e darem força uma a outra. Uma música que, segundo a cantora, fala sobre empatia e gentileza entre as pessoas, especialmente as mulheres. “Me acompanhe até em casa, porque não consigo encontrar um taxi. E então dançamos pelo escuro da rua, segurando as mãos como se tivéssemos dezessete de novo”, cantam juntas as cantoras e amigas, em uma demonstração delicada de afeto.

11. Angel Down

Fechando o álbum de uma forma bem inusitada, Gaga encerra com uma canção intensa, com harpas e uma guitarra bem chorosa e marcante. Com um pesar na voz, a cantora traz mais uma canção com mensagem, desta vez sobre Trayvon Martin, o adolescente negro que, desarmado, recebeu tiros de um policial nos Estados Unidos. “Anjo caído, mas as pessoas só pararam ao redor”. Mais uma vez Gaga se sente preocupada ao ponto de lançar uma canção que seja uma voz para essa geração, que questiona se a coragem dos jovens esmaeceu e pede para que nos ajoelhemos e que deixamos sentir amor e gratidão por um momento.

12. Grigio Girls

A primeira faixa da versão deluxe é dedicada à Sonja, amiga de Gaga que é uma sobrevivente do câncer. A canção fala sobre derramar suas lágrimas no vinho branco Pinot Grigio, enquanto elas vêm a tristeza virar ouro. Uma mistura de country com folk, a música é um carinho aos ouvidos, pois sua montagem é feita para ser uma faixa a ser cantada em plenos pulmões e emoções. Ao término, ouvimos suas amigas se juntando à cantora em um coral que celebra a vida, culminando em risos que nos levam até o momento feliz que deve ter sido a gravação da canção.

13. Just Another Day

Just Another Day tem essa vibe lado B de The Fame, como Summer Boy encontrando os lives de Eh, Eh. Entre piano, guitarra eletrônica, bateria e saxofone, Gaga brinca com sua voz e uma letra divertida, que falam sobre virar as coisas para as coisas que nos faz mal e em buscar formas de demonstrar o amor. Afinal das contas, é só mais um dia. Quem é fã, sabe que essa é a cantora que existia antes da fama. Quem não a conhecia antes, acaba por descobrir uma encantadora garota que pode soar fofa e simples quando deseja.

Joanne é um álbum que se volta às raízes, com Gaga se dando ao luxo de fazer músicas que gostaria de fazer se não tivesse uma gravadora. Com quatro ou cinco faixas que funcionariam comercialmente, Stefani goza de seu nome forte na cultura para criar canções maduras e atemporais que fogem do padrão da época. Embora ele possa abrir os olhos de muitas pessoas sobre o verdadeiro potencial da americana, acreditamos que ele não será um sucesso de vendas, algo que já havíamos previsto quando discutimos se Gaga não vende como antes.

O fato é que Joanne mostra que a cantora vai para onde quiser com sua carreira. Dedicando-se a sons novos para o público, mas conhecidos para ela, Lady Gaga nada contra a maré ao entregar um disco cheio de pérolas em um rendez-vous folk, country e intimista. Pregando mensagens de amor e compaixão, Joanne é uma peça indispensável na coletânea de quem gosta de um artista que se compromete verdadeiramente com sua arte. E Gaga é um desses mitos que se expressam destemidamente, protegidos com uma alma gigante e um coração de diamante

Andy Rocka

Jornalista, estudou Psicologia,
foi social media do Pontofrio,
trabalhou em revistas de ciência,
como a Superinteressante e
Psique, mas sua paixão mesmo
é música e cultura pop.