Clipe Million Reasons – Lady Gaga

15/12/2016

Depois de seu escapismo no deserto, Lady Gaga está de volta trazendo o conceito de Joanne para a canção Million Reasons. “Como assim conceito de Joanne?”. Explico: desde o início da promoção do álbum, a cantora pede para que seus fãs a chamem de Joanne, e a ver pelas suas escolhas (tanto de figurino, quanto de apresentações e clipes), trata-se de uma persona livre das extravagâncias que Gaga adotou ao longo de sua carreira.

Candy Warhol, a sereia Yuyi, o invocado Jon Calderone, são alguns dos alter-egos que a cantora cultiva ao longo desses quase 10 anos de estrelato. Joanne é a personagem que mais se aproxima da vida comum de Stefani Joanne Angelina Germanotta, a filhinha de papai com descendência italiana que adora cozinhar e jogar conversa fora. Essa pessoa humana, vulnerável e passional que se relaciona com diversos tipos de público. Até os passos mais simples de Lady Gaga possuem uma estratégia bem definida.

E é com base nessa estratégia de Joanne que Million Reasons chega como uma brisa fresca em meio a uma videografia megalomaníaca. O clipe começa de onde Perfect Illusion, o primeiro single, parou. A continuidade existirá enquanto estivermos nessa era, segundo a própria cantora por meio de suas redes sociais. Como não poderia ser diferente, Million Reasons tem um vídeo que combina com a despida e entregue letra da canção.

O que ela fala?

Million Reasons fala sobre ter milhões de razões para abandonar alguém, mas que só precisa de uma para ficar. “Eu me ajoelho para rezar, tento fazer o melhor do pior. Senhor, me mostre o caminho para me libertar do couro gasto dele. Eu tenho cem milhões de razões para ir embora, mas querido eu só preciso de uma boa razão para ficar”, canta emocionada.

Enquanto a música se relaciona na vida de muita gente, na vida de Gaga a canção fala sobre sua relação com a indústria da música e seus fãs. O clipe vem para corroborar com essa afirmação, a qual nos faz concluir que as milhões de razões que a cantora tem para deixar os holofotes são as críticas que permeiam sua camaleônica carreira, enquanto que o único e bom motivo que a faz ficar é o amor dos fãs.

E o clipe?

Mesmo que tenha dedicado o vídeo aos seus fãs, Gaga dividiu a opinião de seus Little Monsters por conta da simplicidade que optou por filmar o clipe. A artista que no começo da década de 2010 revitalizou a arte dos videoclipes, agora dá um passo atrás nas construções de vanguarda para entregar uma peça íntima, simples e pueril.

No clipe vemos Gaga jogada no chão no meio do deserto, no exato ponto em que Perfect Illusion a deixou. Carros chegam com fãs/amigos para levantar sua autoestima e motivá-la a continuar. Depois vemos que a cantora volta ao estúdio para gravar um clipe, recorrendo à ótima função metalinguística. Mother Monster então nos permite vê-la em seu camarim, sem indumentárias que roubem a cena ou maquiagem que transforme seu rosto. Tudo muito cru, para não ofuscar a música e sua mensagem.

O vídeo termina com Gaga descobrindo um presente na bancada de sua penteadeira. Ao abri-lo, encontra um bilhete dizendo “Te amamos irmã” com um terço. Ela chora com o presente em mãos e termina seu clipe com a icônica silhueta de Joanne e seu chapéu rosa.

E o que tem de mais?

Comprometida e coesa, Lady Gaga mantém a proposta de Joanne, mesmo que isso desagrade sua legião de seguidores. Outrora irreverente e extravagante, agora ela deseja se mostrar apenas uma garota normal. “A regular girl” como parodiou a rainha Alaska. E mesmo os que não gostaram, eles não podem deixar de admitir que Gaga saiu de sua zona de conforto e está se dando muito bem assim.

O clipe vem com a certeza de agradar quem realmente precisa: o grande público, com quem Gaga se desconectou ao longo das barulhentas fantasias de eras passadas. Parece claro que Million Reasons recolocou a artista de volta ao topo das paradas, mostrando que Joanne é a persona mais bem quista de Gaga em muito tempo.

Call me Joanne. XO Joanne.

Andy Rocka

Jornalista, estudou Psicologia,
foi social media do Pontofrio,
trabalhou em revistas de ciência,
como a Superinteressante e
Psique, mas sua paixão mesmo
é música e cultura pop.