A diferença entre opinião e discurso de ódio

11/05/2016

Patricia Abravanel se mostrou aquela nossa amiga que se acha moderna, mas que no fundo carrega consigo os velhos preconceitos da sociedade heterocentrada. Durante um programa de seu pai, o grandioso Silvio Santos (que inclusive leva travestis para a plateia), a apresentadora resolveu vomitar sua opinião sobre homossexualidade.

“Acho que a gente tem que ensinar para o jovem de hoje que homem é homem e mulher é mulher. E se por acaso ele tiver alguma coisa dentro dele que fale diferente, aí tudo bem. O que está acontecendo é que estão falando que tudo é bonito e o jovem acaba experimentando coisas que pode vir a se arrepender depois. Eu não sou contra o homossexualismo (sic), mas sou contra falar que é normal”.

Tem tanta coisa errada nesse discurso, não é Paty? Antes de falarmos sobre ele, vamos nos debruçar sobre o que é opinião. Segundo Michaelis, opinião é o modo de ver pessoal; parecer, voto emitido ou manifestado sobre certo assunto. Todo mundo tem direito à opinião. Mas quando ela se torna discurso de ódio?

Canadenses protestando contra o discurso de ódio

Para entendermos melhor, vamos analisar o que é de fato um discurso de ódio. Ele é qualquer ato de comunicação que inferiorize uma pessoa tendo por base características como raça, gênero, etnia, nacionalidade, religião, orientação sexual ou outro aspecto passível de discriminação. Ou seja, é qualquer discurso ou escrita que pode incitar violência ou ação discriminatória contra um grupo de pessoas ou porque ela ofende ou intimida um grupo de cidadãos.

Assim, sua opinião termina quando começa a ofender aos outros. A ofensa, no caso da declaração da senhorita Abravanel, é caracterizar a relação homossexual como anormal. Ela não só reprime a uma grande parcela da humanidade, como condena a experimentação sexual entre os jovens. Ora dona Abravanel, se fosse assim, quando um homossexual curiosamente pratica relação sexual com uma mulher na juventude, ele automaticamente cederia às tentações femininas o resto da vida?

Patrícia Abravanel, em seu discurso de ódio fantasiado de opinião, diz que a homossexualidade é uma tentação que os jovens podem sucumbir caso se deixem levar pela divulgação da mesma. Se orientação sexual fosse estimulada por filmes, novelas, séries, música e outros meios de manifestação artística, então nossa sociedade seria inteiramente formada por heterossexuais. Mas não é. E por isso que, em sua fala, Paty não só dissemina o preconceito, como também a ignorância.

Para nossa querida comunicóloga, o homossexualismo (termo há muito abolido pelo Conselho de Psicologia) não é supernormal a ponto de expormos nossos filhos a isso. Pelo contrário não é Paty, o correto é esconder de nossas crianças a existência do desejo entre pessoas do mesmo sexo, pois assim poderíamos erradicar essa prática tão anormal em seu ponto de vista.

Cena do filme Carol, que segundo Patrícia, pode disseminar a homossexualidade

Infelizmente há inúmeros profissionais formadores de opinião que dividem do mesmo pensamento de Patrícia. Mas graças ao advento da internet, os homossexuais puderam ganhar voz na sociedade, fazendo com que Paty tivesse que vir a público pedir desculpas pela sua declaração. Entendemos você querida Abravanel, não tem nada contra os gays, você até tem amigos que são, o problema é quando eles resolvem agir tão normalmente que você chega a se incomodar com o fato de um terço dos jovens se relacionarem com pessoas do mesmo sexo.

Coincidência ou não, após o depoimento homofóbico de Patrícia, seu programa 'Máquina da Fama' apresentou queda de audiência, registrando 5,4 pontos na Grande São Paulo (cada ponto equivale a 69,4 mil domicílios), contra os 6,5 pontos de Xuxa Meneghel. A rara derrota de Paty mostra que supernormal mesmo é a sociedade se unir contra discursos de ódio. Assim, continuamos com a programação normal.

Andy Rocka

Jornalista, estudou Psicologia,
foi social media do Pontofrio,
trabalhou em revistas de ciência,
como a Superinteressante e
Psique, mas sua paixão mesmo
é música e cultura pop.