EP Filhos de um Deus que Dança – Thiago Elniño

05/09/2016
  • Ano: 2016

Filhos de Um Deus que Dança, o EP lançado pelo rapper brasileiro Thiago Elniño, fala sobre a força espiritual como formadora de identidade. Sem medo de soar religioso demais, o artista usa e abusa das percussões comumente ouvidas durante os cultos de religiões de origem africana, como Umbanda e Candomblé. Estranho e forte para uns, recorrente para outros, a melodia pesada já é, por si só, um manifesto vivo.

Ponto de Abertura (Laroiê) é a faixa que abre o trabalho do jovem cantor. Laroiê é a saudação ao Exu na cultura Afro-Brasileira. Desta forma, Thiago já abre seus trabalhos evocando entidades com uma batida simples – de palmas – e acompanhado de um pequeno coral que entoa o cântico. Em um primeiro momento, dá essa impressão de que o EP é, na verdade, cantos de cunho religioso. Mas a segunda faixa chega dando forma ao disco, mostrando que Elniño não fará um simples apanhado de músicas religiosas, mas que a religião faz sim parte de seu repertório. Um meio e não um fim.

Filho de um Deus que Dança, faixa homônima ao EP, começa de onde a faixa anterior parou. Aliás, o EP é non-stop, com uma canção mixada à outra. A faixa desmistifica o senso comum sobre as religões africanas: “Demônio é o inimigo que propaga a ignorância de dizer do nosso culto coisas que eles não são”. Para Thiago, é importante despir seu ouvinte de preconceitos sobre seus sons, sua fé. “Olho para dentro da minha própria alma, enxergo o desfiladeiro, mas mantenho a calma. Pois, quem me guia, são seres de luz”, canta o artista, que transforma sua música em uma confissão. A cantora Ive Seixas também empresta seus vocais para a ótima canção, que mistura rap, a percussão ritualística e batidas eletrônicas.

Diáspora é a terceira faixa do trabalho e também tem o espírito pessoas da canção anterior, revelando fatos íntimos do cantor, como quando ele diz que “eu era bem diferente dos caras que estavam ali na mtv (...) esse pretinho quer ser branco ó, cala boca jhow”. Thiago canta sobre dificuldade e preconceito, ao mesmo tempo em que transmite uma mensagem de luta e perseverança: “meu povo faz magia, das folha tira energia para espalhar amor na terra que já foi dos índios um dia”. Diáspora, a palavra, define o deslocamento, normalmente forçado ou incentivado, de grandes massas populacionais. Por isso Elninõ nos diz que “certeiro como a flecha de oxossi eu vim pela posse do povo preto, de tudo aquilo que é seu (...) a justiça chegou”.

A produção da faixa surpreende ao remeter aos trabalhos de Kanye West, com batidas marcantes, um backing vocal estilo xamânico e um rap cheio de identidade. Destemido, Thiago evoca seus santos entre canto e rap, com sua língua presa, trazendo ainda mais charme e personalidade para seu trabalho. Próximo ao final da faixa, Diáspora nos presenteia com uma virada sonora, tornando-se de repente leve, ao tempo em que Thiago conscientiza: “irmão, me diz qual é o defeito de saber de onde veio, de saber quem você é irmão, fizeram tu achar feio você vir de onde veio, destruíram sua fé”.

A última faixa, Ponto de Saudação para o Povo Preto, lembra os cantos religiosos típicos das religiões africanas. A música fecha como um nó o EP, que também inicia com um cântico que enaltece o povo e a cultura negra. Filhos de um Deus que Dança possui seu espírito contestador com base em uma religião, porém Thiago vai além e dá vida a uma verdade manifestação artística em prol da sua raça e suas crenças. Um verdadeiro artista, envolvido sem medo com suas raízes e que nos faz feliz com um disco forte e cheio de mensagem.

E é com a mesma devoção que Thiago Elninõ canta sobre sua cultura que ficaremos aguardando e observando seus passos. Laroiê!

Andy Rocka

Jornalista, estudou Psicologia,
foi social media do Pontofrio,
trabalhou em revistas de ciência,
como a Superinteressante e
Psique, mas sua paixão mesmo
é música e cultura pop.