A época do crush e o culto ao vazio

06/06/2016

Se você é frequentador de internet, deve ter se deparado com o termo crush. Os jovens se apoderaram do termo “I got a crush on you”, que significa “eu tenho uma queda por você”, para dar vida ao crush, que resumidamente, significa a pessoa por quem você tem interesse. Tudo, claro, no campo do platonismo.

Mas estudar o uso deliberado dessa palavra pode nos levar a interessantes reflexões. Para começar, vamos tentar entender a necessidade de criar um novo termo para designar algo que já existia. Se alguém está interessado em uma pessoa, esse seria sua paquera, seu affair, seu rolo. Mas os jovens não quiseram fazer uso de palavras batidas e por vezes antiquadas, por isso criaram uma nova. Os memes estão em alta.

Criar um novo termo demonstra que há uma demanda entre esses jovens. Algo que traduza melhor o que significam esses affairs, que são rápidos, em sua maioria virtuais e platônicos. Vinculado a essa ideia de crush, surgiram novos memes, como “ser trouxa”. Ser trouxa, fazer papel de trouxa, é muito comum para essa nova geração, que vê graça na tragédia. Embora, colocando em pratos limpos, sofrer por um crush é uma dor tão vazia quanto a própria ilusão da pessoa idealizada.

Crush na verdade é uma pessoa idealizada. A pessoa idealiza outra por meio das informações que essa compartilha nas redes sociais e das fotos que coloca online, isto é, da imagem que a outra cria para si mesma. Quando a pessoa tem um crush, ela deseja a persona que a outra criou de si própria, porque sabemos que as informações que mostramos de nós mesmos na internet ou em relações superficiais (como com colegas ou pessoas com quem convivemos, mas não temos intimidade) compõe apenas uma pequena parte daquilo que realmente somos.

Porém, a idealização é muito mais comum do que podemos pensar. Sigmund Freud, pai da Psicanálise, defende que a idealização se origina do próprio narcisismo infantil dos pais, que faz com que a relação com o filho seja carregada de perfeição e de onipotência. Em Psicologia das Massas, o psicanalista aponta que o ser humano, lidando com sua extrema dependência e fragilidade, tem a necessidade de criar e de acreditar em algo maior. No caso, em um crush.

Melanie Klein, psicoterapeuta pós-freudiana, diz que a idealização representa a dificuldade que nós temos de suportar a realidade, que traz constantes frustrações na vida. Por isso ter um crush e sofrer por ele mostra como esses jovens cultivam o vazio, pois o sofrimento de uma relação que não existe é muito mais simples de lidar. Vejam que “fazer papel de trouxa” deixou de ter uma conotação 100% pejorativa para cair no campo do humor.

Então, ter um crush é cultivar o vazio que existe dentro de você, pois ele alimenta sentimentos a uma pessoa idealizada (não ela em si, mas a ideia de quem ela seja) e que jamais sairá do campo das ilusões. Mais que isso, ter um crush traz a falsa sensação de sofrimento, que serve como catalisador para movimentar a vida da pessoa, mesmo que seja um sentimento vazio de significados. O importante em ter um crush não é a sua realização como relacionamento, mas a ideia de viver uma relação que não existe, calcada na incompletude.

Freud aponta que, durante a primeira infância, na ausência do seio da mãe, o bebê irá criar um seio para si, tamanha a intolerância do pequeno humano diante das frustrações. Por isso, quem deseja um crush, deseja inconscientemente criar para si um refúgio do real, em que ele não tenha que lidar com as consequências reais de um relacionamento, mas sim com uma relação vazia de significados. O fato é que os crushes escondem o medo que esses jovens sentem de enfrentar uma relação de verdade.

Crush é um simulacro de relacionamento, que cultiva a relação vazia entre as pessoas. Não se sinta feliz se for o crush de alguém, pois isso significa que há uma pessoa interessada em você, mas não por quem você é, mas pela imagem que você projeta em suas redes ou relações superficiais. A pessoa não está interessada em você, mas sim pelo o que você representa.

Se você é ou conhece um jovem que esteja passando por isso, não se preocupe tanto. Essa foi a forma que a nova geração encontrou de amortecer os ônus de uma relação. Todos nós já passamos por coisas semelhantes, só que tínhamos outros nomes para isso. Crush ou paquera, tudo que queremos é sermos felizes.

Andy Rocka

Jornalista, estudou Psicologia,
foi social media do Pontofrio,
trabalhou em revistas de ciência,
como a Superinteressante e
Psique, mas sua paixão mesmo
é música e cultura pop.