A maldição de ser fã

02/08/2016

Existe um fã dentro de todos nós. Às vezes, admiramos a nós mesmos, aos nossos pais, professores e, na maioria das vezes, tornamos celebridades em ídolos. Quando somos criança, a necessidade de liberdade e autonomia faz com ansiamos com o dia em que estaremos livres das imposições de nossos pais e sociedade, e transferimos nossos desejos a algum super-herói do momento.

Mas quando chegamos à adolescência, passando por um processo de transformação corpo/mente, queremos ídolos de carne e osso, para que possamos nos espelhar. Para a ciência, desejamos as celebridades pois elas são protegidas pelo escudo da fama, isto é, nos são intocáveis e, portanto, não nos causam mal. Já que, nesta fase, estamos frágeis e qualquer mágoa pode nos desestruturar. Assim, podemos amar de forma plena nossos ídolos sem corrermos o risco do abandono. Porque, para o adolescente, o ídolo age e reage da forma como ele determina, ou seja, a pessoa tem o controle da relação.

Estes ídolos representam uma série de características valorizadas pelos adolescentes e pela nossa cultura ocidental. Às vezes a rebeldia, a aparente independência, beleza, fama, sucesso ou dinheiro. Algo que vemos na pessoa idolatrada e que nos fascina e nos prende a ela. Desta forma, o “culto dos Ídolos” exerce importantes efeitos culturais e sociais, através da oferta de modelos e papéis, comportamentos e atitudes, disponíveis para as variadas subculturas juvenis.

E o problema disso tudo?        

Os problemas começam quando, na adolescência ou depois dela, mantemos a calorosa admiração, nos privando de relações verdadeiras. Manter um ídolo, ser fã, pode se tornar uma fuga da realidade, na tentativa de amenizar a frustração, ou seja, diante de algo que não gostamos, ou não nos satisfaz, procuramos algo que, apesar de ilusório, nos agrada. Freud já demonstrou que tanto os sonhos quanto as fantasias são processos visando avaliar a angústia, então as relações fantasiosas com o ídolo pode ser um escape da vida real.

Um escape que pode se tornar perigoso, à medida que a relação começa a se tornar vital. Muitos fãs já tentaram (outros conseguiram) matar seus ídolos, porque eles não os deu atenção que gostaria ou por algum outro distúrbio do comportamento, típico de pessoas que possuem relações fantasiosas. Isso sem contar que quanto mais a pessoa gosta de um determinado ídolo, mais ela pode se afastar de outros grupos e de outras atividades. No sentido de que isso pode atrapalhar o relacionamento interpessoal e até a vida profissional, deixando de ser algo benéfico e voltado para o lazer, para se tornar um grande problema.

John Lennon, vítima fatal de fanatismo

Claro que aqui chegamos aos extremos da maldição de ser fã, mas ainda assim há manifestações psicológicas que não conseguimos controlar quando mantemos uma relação de idolatria com alguém. É comum sofrermos quando a pessoa sofre, nos alegrarmos com uma vitória de nosso ídolo, brigarmos com fãs de outros ídolos, defender a ferro e fogo a pessoa admirada.

Na maioria das vezes, gostar de uma celebridade não é nada demais, apenas mexe com nossos sentimentos em um curto período de tempo e, depois, retornamos às nossas atividades normais. Mesmo alguns dos fãs obcecados conseguem um espaço social que não conseguiriam de outra maneira. Para aqueles muitos tímidos, gostar de uma celebridade funciona como uma “prótese psicológica”, pois o coloca em contato com outras pessoas que possuem a mesma obessessão, criando assim um vínculo social. É fazer o melhor do pior.

Seja um fã saudável

O ideal é que tenhamos em mente a linha tênue entre admirarmos o trabalho ou a vida de alguém e nos tornarmos reféns desse sentimento. O ídolo é alguém com quem nós nos identificamos, e não alguém com quem mantemos um relacionamento. Ter essa diferença bem clara e estabelecida pode te ajudar a não ser um fã doentio, coisa que você, nem seu ídolo, gostarão de ter.

Andy Rocka

Jornalista, estudou Psicologia,
foi social media do Pontofrio,
trabalhou em revistas de ciência,
como a Superinteressante e
Psique, mas sua paixão mesmo
é música e cultura pop.