O que o faturamento de The Formation World Tour pode nos dizer?

18/10/2016

The Formation World Tour, sétima turnê de Beyoncé, encerrou seu ciclo de 49 shows em estádios, que ocorreram entre 27 de abril e 7 de outubro. A cantora conseguiu vender mais de 2,2 milhões de ingressos para seu espetáculo, o que somou um faturamento de US$ 256 milhões. Com este feito, Beyoncé figura entre as dez turnês mais lucrativas da década e se torna a quarta turnê feminina mais rentável da história.

Mas o que números tão impressionantes podem nos dizer, quando Beyoncé vem de uma era mal compreendida nos charts? Desde Single Ladies (2009), a cantora não emplaca seus singles no topo da maior parada de música do mundo, a Billboard. Seu álbum Lemonade, que por algum tempo foi exclusivo da plataforma Tidal, conseguiu vender 653.000 cópias em sua primeira semana, abocanhando o primeiro lugar dos álbuns mais vendidos. Além disso, Beyoncé conseguiu emplacar todas as faixas do disco no ranking Billboard Hot 100, conforme tabela abaixo:

A verdade é que, mesmo que tenha vendido 2,5 milhões de cópias comercializadas mundialmente até o momento, Lemonade não é um álbum para as massas, como dissemos neste artigo aqui. Nenhum de seus singles se tornou um grande hit e, mesmo assim, a esposa de Jay-Z conseguiu realizar sua turnê esgotando todos os ingressos de todos os shows. Como pode isso?

A arrecadação de The Formation World Tour nos diz que há artistas que são maiores que seus números. A cantora nos mostra que o nome Beyoncé está acima de qualquer sucesso comercial que ela possa fazer (ou não) em sua carreira. Quando o artista se torna uma lenda e seu nome se confunde com a história da música, não há chart que possa desconstruir o mito. Há realmente quem acredite que Celine Dion se preocupa com a performance de um álbum novo?

Vivemos em uma época em que os jovens se importam mais com os números das paradas musicais do que com a arte que o artista entrega. Isso graças a uma máquina de fazer dinheiro chamada Indústria da Música, que tem como aliada íntima a mídia, que colabora diariamente para que nossa geração se foque em números, fofocas e intrigas de celebridades, ao invés de focar em celebrar a experiência profissional do artista.

A geração que nasceu sob a era do Google, do imediatismo, do consumismo imediato, mensura suas predileções musicais com base no que é mais popular, no que consegue alcançar um pico maior em tabelas periódicas de música. Não percebem que Bruce Springsteen, AC/DC, Roger Waters e U2 são os nomes que mais faturaram dinheiro na década de 2010 com shows, pois estão obcecados com rankings, em uma disputa entre fã-bases para ver qual ídolo se dá melhor.

Beyoncé arrecadando mais dinheiro do que nunca com seus shows mostra que sua limonada continua promovendo reflexões pertinentes, que pode fazer com que os jovens se conscientizem de que arte de qualidade não tem nada a ver com reconhecimento, senão Picasso teria morrido rico. Sucesso comercial, como já discutimos aqui, é um mero reflexo do comportamento de consumo das pessoas em determinado espaço de tempo.

Lemonade pode não ter emplacado nenhum hit, mas Beyoncé continua brindando. Tin-Tin.

Andy Rocka

Jornalista, estudou Psicologia,
foi social media do Pontofrio,
trabalhou em revistas de ciência,
como a Superinteressante e
Psique, mas sua paixão mesmo
é música e cultura pop.