Olá, sou um textão

25/08/2016

Olá, eu sou o textão. Eu apareço no Facebook dia sim, dia também. Sabe, as pessoas recorrem muito a mim. Eu cumpro esse papel chato de te trazer sempre uma opinião. “Mas por que chato?”. Bem, não é sempre que as pessoas querem ler sua opinião, não é mesmo? Claro que a rede social é sua e você posta o que quiser, porém, o que essa necessidade de recorrer a mim pode dizer sobre você?

Vamos falar sobre narcisismo, que é um estudo da Psicanálise de quando a libido está direcionada para si próprio. Narciso, um mito grego, é um jovem bonito e indiferente ao amor que ao se ver refletido na água se apaixona pela própria imagem refletida. Se ele fosse vivo nos dias de hoje, com certeza ele compartilharia milhares de fotos de sua imagem em suas redes sociais. Hoje, nossos Narcisos não se contentam em apenas contemplar sua imagem, eles sentem essa necessidade de compartilhá-la.

O mesmo acontece com as opiniões. As pessoas não aguardam mais serem questionadas sobre o que pensam, elas querem se posicionar. Trata-se de fazer com que elas se sintam amadas e aceitas – mensurando com o número de likes que sua postagem ganha. Porém, precisamos entender esse fenômeno sem um viés moralista ou patológico, afinal, todos somos um pouco narcisistas, e atualmente a água a refletir nossa imagem são as redes sociais.

Quando as pessoas recorrem muito a mim, o textão, é como se elas estivessem controlando sua aceitação social, funcionando como um verdadeiro espelho. Isto é, quanto mais elas se expõem, mais são notadas, admiradas e, assim, mantêm suas relações. Entre os jovens então (partindo do pressuposto de que os adultos já possuam um conceito de si mesmo mais estruturado), o uso excessivo de textão pode indicar insegurança, pois eles estão em uma fase de construção de suas identidades pessoais. 

Acontece que o tiro pode sair pela culatra, isto é, você pode se tornar “a pessoa do textão”. Seu excesso de exposição pode te tornar uma pessoa inoportuna, que não sabe lidar com suas questões pessoais e que precisa incansavelmente da aceitação do outro, por meio de likes, comentários, discussões etc. É o Narciso realizando o que chamamos de compensação psicológica, pois devido sua insegurança, precisa provar aos outros que a imagem pela qual ele se apaixonou – ele mesmo – é digna sim de amor. Em outras palavras, eu, o textão, sirvo como ponte entre a pessoa e sua necessidade por reconhecimento.

Então gente, eu suplico, não me odeiem. Eu não tenho culpa de aparecer toda hora na sua timeline, não é uma coisa que eu gostaria, mas acontece. Deixo também outra súplica: por favor, parem de me procurar. Tudo bem se você recorrer a mim uma vez ou outra, mas toda vez cansa. Estou cansado de contar gratuitamente sobre sua vida ou sua opinião. Reserve meu uso para quem realmente pedir por mim. Daí eu venho, com maior prazer.

Reserve-se, poupe-se, senão, procure meu primo, o vlog. Ele também está em alta. Obrigado, beijos não me liga.

Andy Rocka

Jornalista, estudou Psicologia,
foi social media do Pontofrio,
trabalhou em revistas de ciência,
como a Superinteressante e
Psique, mas sua paixão mesmo
é música e cultura pop.